
O nigeriano Philip Emeagwali é doutor em computação pela Universidade de Michigan e coleciona prêmios, entre os quais o Gordon Bell, conferido somente a gênios da tecnologia.
O ex-presidente Bill Clinton prestou-lhe homenagem pública e chamou-o de Bill Gates africano.
Philip cresceu na cidade de Onitsha, no sudeste nigeriano. Era tão brilhante na escola primária que seus professores só o chamavam de Calculus.
O que tornou os feitos de Phlip mais extraordinários é que ele e a família viveram os horrores da guerra civil.
“Dormíamos em campos de refugiados, edifícios abandonados e casas bombardeadas. Ficávamos em longas filas para receber comida de organizações de caridade”, ele lembra. O sofrimento valeu. Fez ele um jovem psicologicamente forte e equipou-o com grande senso de determinação e visão.
Hoje, ele é consultor em computação, internet e tecnologia da informação. Por trás de seu sucesso, está um computador que ele batizou de Máquina da Conexão, capaz de fazer 3,1 bilhões de cálculos por segundo.
Emeagwali, 54 anos, é casado com a biomédica Dale Brown. Gosta de futebol, de nadar e jogar tênis.
Tem uma bela casa nos arredores de Washington e é dono de uma fortuna pessoal de 300 milhões de dólares, parte da qual ele destina a famílias nigerianas carentes.
Via e-mail, ele me concedeu essa pequena entrevista.
Fale um pouco de seu passado, de sua vida na Nigéria.
Emeagwali - Por volta de 1550, a escravatura forçou meus ancestrais a migrarem de Benin para Onitsha (Oh-nih-chaah), cidade em que nasci. Onitsha (Oh-nih-chaah) é corruptela de Orisha (Oh-rih-chaah), a religião africana. Os portugueses mandaram para o Brasil milhares de escravos orishas. Os britânicos e espanhóis também os exportaram para ilhas do Caribe, principalmente para Cuba e Trinidade. A influência dos orishas é vista hoje nos ritos, música e crenças de brasileiros e povos de língua espanhola. Como era a vida nos campos de refugiados da Guerra Civil nigeriana?Emeagwali - Terrível. Éramos cinco milhões a fugir do exército nigeriano, com muito medo, pois eles não faziam prisioneiros, matavam sem piedade – só em Onitsha trucidaram 2000 homens. As mulheres eram estupradas. Por cinco vezes escapamos deles. Até que Onitsha foi capturada. Os que tiveram sorte, como eu, conseguiram se esconder em escolas abandonadas. Eu passava os dias pescando no Rio Niger e apanhando cocos para comer. A fome era assustadora. Devorávamos até cachorros, quando eles apareciam.
O senhor é famoso e o mundo inteiro chama-o de Bill Gates da África. Como vê essa comparação? Emeagwali - Os africanos ficaram ofendidos quando o presidente Bill Clinton descreveu-me como o Bill Gates da África. Eles disseram: “Bill Gates é que é o Philip Emeagwali da América”. Bill Gates e eu somos experts em tecnologia da informação. Ele é um empresário e eu sou um cientista. Bill Gates se aproveita do conhecimento e das idéias de pessoas como eu, que criaram computadores e a Internet.
Em poucas palavras, a que o senhor atribui seu sucesso?
Emeagwali - Eu trabalho duro e acredito no ditado que diz: ”Sair cedo da cama para fazer a colheita, torna os homens saudáveis, ricos e sábios”. E sempre falo para mim mesmo que se as coisas não dão certo da primeira vez, deve-se tentar de novo.Quem o influenciou em seu trabalho?Emeagwali - O matemático africano Euclides. Ele nunca pôs os pés fora da África e viveu numa cidade predominantemente negra, ao lado de uns poucos imigrantes judeus e gregos. Ele é lembrado como o mais importante matemático de todos os tempos e seu livro ‘Os Elementos’ só perde em tiragens para a Bíblia.Como o senhor chegou à Máquina da Conexão.Emeagwali - O computador moderno é produto de uma série de invenções, desde que, há dois mil anos, na China, surgiu o ábaco, que era um engenho de calcular. Em cada geração, cientistas o reiventam. Eu sou um deles. Fui o primeiro a demonstrar que muitos computadores interligados são mais rápidos do que um só, com um superprocessador. Se duas cabeças pensam melhor do que uma, o que dizer então de 65 mil cabeças. Por essa razão, programei um computador para trabalhar com milhares de outros. Em 1988, compartilhei 65 mil processadores que conseguiram realizar 3,1 bilhões de cálculos por segundo. A Apple e a IBM estão se valendo da minha criação.
De que forma Internet beneficia inventores como o senhor?
Emeagwali – Pessoalmente, não tenho outra escolha a não ser estar sempre online. Os supercomputadores que eu programei estão a quilômetros de distância e só posso alcançá-los via Internet. Além disso, conquistei novas audiências. Em dias normais, recebo e-mails de uma pequena cidade africana pedindo-me ajuda ou de um inventor à cata de orientação. Para mim, a Internet é boa e má. É boa porque me permite trocar idéias férteis com pessoas que nunca vi na vida. É má porque fragmenta meu tempo, me torna ansioso e me força a responder e-mails de dúvidas e mais dúvidas sobre como obter sucesso profissional. Por causa disso, minha mulher me apelidou de ‘Dear Abby’ (coluna de grande sucesso popular, publicada por centenas de jornais norte-americanos e assinada por Pauline e Jeanne Phillips, mãe e filha, respectivamente).





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